Sunday, September 26, 2010

Baixo Ribeiro, setembro/2010







30/09/2010 - 17h33
Antes de chegar à Bienal, Choque Cultural já abria espaço para o grafite

KÁTIA LESSA
DE SÃO PAULO

Imagine uma galeria de arte em noite de vernissage. Agora, diminua a luz, rabisque as paredes, aumente o som e esqueça os garçons uniformizados. Busque uma cerveja no bar, converse com o artista, não tenha medo de perguntar o preço das obras. Foi mais ou menos isso que Baixo Ribeiro, 47, propôs aos frequentadores do circuito das artes plásticas no Brasil, ao criar, em 2004, a Choque Cultural.

Durante a exposição de um amigo pintor, Baixo descobriu por que seu filho adolescente coçava a nuca e contorcia os braços toda vez que entrava em uma galeria. "O Jotapê cresceu cercado de artistas, é neto do pintor Aldemir Martins, passava tardes desenhando na casa do avô. Notamos que o incômodo não vinha das pessoas ou das obras, mas das paredes brancas, da luz fria, do modo como os quadros eram expostos."

A criação da Choque foi a saída encontrada por ele e a mulher, Mariana Martins, 51, para apresentar ao filho, Jotapê Pabst, que já dava sinais de que poderia ser artista plástico, uma alternativa àquele ambiente de artes, considerado hostil por ele e pelos amigos de mesma idade.

Assim, em novembro de 2004, o ex-estudante de arquitetura da FAU decidiu transformar em um ambiente criativo a casa no bairro de Pinheiros em que morava e trabalhava como designer de roupas para skatistas. Convidou grafiteiros, quadrinistas, tatuadores e artistas que faziam estamparia para suas peças e, no Dia de Finados, expôs os trabalhos em paredes coloridas. "Calaveras" foi a primeira e única coletiva temática da galeria, uma espécie de batismo.

Desde a abertura, já passaram por lá mais de 200 profissionais, muitos deles com trabalhos nunca antes levados a sério por expositores consagrados, e que hoje trabalham e são reconhecidos internacionalmente, como Speto, Zezão, Stephan Doitschinoff e Titi Freak. "O Baixo foi visionário, nenhuma outra galeria reconhecia nosso trabalho da forma que acontece hoje. Quando alguém perguntava o que eu fazia, tinha dificuldade de dizer que era um artista plástico", conta Chivitz, 33, um dos apadrinhados do galerista.

"O Baixo não ajudou só a consolidar artistas, ele formou uma legião de colecionadores", diz Stephan, 33, um de seus nomes mais valorizados, que vendeu telas por R$ 70 mil em Nova York.

A Choque já recebeu 50 artistas internacionais, patrocinou 20 residências de estrangeiros no Brasil e 30 de brasileiros no exterior, além de quebrar recorde de visitações na exposição "De Dentro para Fora, de Fora para Dentro" neste ano, no Masp: 140 mil pessoas circularam pelo evento, que chegou a reunir 8.000 visitantes em um único dia de exposição.

TIPO EXPORTAÇÃO

A fama internacional do "brazilian graffiti", que estourou com o sucesso dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, osgêmeos, ajudou a consolidar o trabalho dessa leva de pintores, escultores e ilustradores. "Hoje, recebemos uma média de cinco portfólios por dia, e sei que muitas dessas pessoas foram instigadas pelo trabalho dos gêmeos, que nos apoiaram desde o início, mesmo não sendo artistas da Choque. Crescemos juntos, em meio a um sistema que não valoriza a arte", diz Baixo. "Um artista não existe quando ganha um diploma, ele nasce com a sua obra. Não era possível ignorar os artistas urbanos, bastava organizar seu trabalho e suas escolhas."

O que pouca gente sabe é que a Choque Cultural quase não aconteceu. A galeria, hoje dividida entre a casa original, para instalações, o Acervo, para telas, e uma nova casa, com abertura prevista para outubro, que deve abrigar trabalhos à venda por até R$ 5.000 e uma biblioteca especializada, foi o plano B de uma ovelha desgarrada da moda. Baixo Ribeiro fez parte de um coletivo de estudantes na Casa Rhodia, comandado por Marie Rucki, fundadora do primeiro curso de moda contemporânea em Paris, o Studio Berçot. Lá, dividiu a tesoura com Reinaldo Lorenço, Jum Nakao e Glória Coelho. Chegou a trabalhar com Ocimar Versolato, mas hoje raramente toca nas agulhas, a não ser que precise ajustar o vestido da artista plástica com quem é casado desde 1982.

Para quem acompanhou a história da galeria de perto, o mix de referências que rondava a vida do galerista foi o segredo do sucesso. "A Choque é o resultado da ligação de Baixo com o skate, com o punk dos anos 80, com a moda. Ele carrega a atitude de seus artistas e, com isso, cria um elo com um consumidor que estava órfão", explica o chef Alex Atala, em um jantar oferecido aos artistas da galeria em plena segunda-feira, no subsolo de seu restaurante mais novo, Dalva e Dito. "A arte da Choque é mais possível", completa o chef, que tem cinco telas compradas na galeria e diversas paredes de sua casa pintadas durante eventos que misturaram gastronomia, bom papo e arte. Da mesma forma como Jotapê fazia ao lado da turma do avô.

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1 Comments:

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